10 anos do incêndio na boate Kiss: as fortes lembranças de sobreviventes

Incêndio em Porto Alegre foi o segundo maior da história no país em número de mortos

Foto: Marizilda Cruppe / BBC News Brasil
Foto: Marizilda Cruppe / BBC News Brasil

O doutorando em Veterinária Gustavo Cadore, de 31 anos, chegou à boate Kiss por volta das duas e meia da manhã. Embora já tivesse ido lá outras vezes, nunca achou a casa tão cheia. Naquela noite, a festa ‘Agromerados’ reunia estudantes de seis cursos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Gustavo estava em frente ao palco quando, às três e dezessete, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, de 32 anos, acendeu um artefato pirotécnico. Em poucos segundos, uma fagulha alcançou o revestimento de poliuretano do teto do palco. As chamas logo se alastraram. Ao ouvir os primeiros gritos de “É fogo!”, Gustavo saiu correndo. Foi quando ouviu um estrondo e, em seguida, as luzes se apagaram. No empurra-empurra, caiu e foi pisoteado. “Não posso morrer aqui”, pensou.

Com dificuldade, o rapaz conseguiu se levantar. Por três vezes, tentou encontrar uma saída, mas não conseguiu. “Preciso me manter calmo”, repetia, baixinho. O longo caminho até a rua incluía, entre outros obstáculos, grades de ferro usadas na organização das filas.

Quando menos esperava, Gustavo avistou uma fresta de luz vinda do lado de fora. Cambaleante, cruzou a entrada do número 1.925 da rua dos Andradas, no Centro de Santa Maria (RS). Foi naquele endereço que, na madrugada de 27 de janeiro de 2013, 242 pessoas perderam a vida — 90% delas tinham entre 18 e 30 anos.

“Era impossível respirar. Parecia que respirava fogo”, relata Gustavo, um dos 636 sobreviventes da tragédia. “Até hoje, não me esqueço dos gritos de desespero. Nunca vão sair da minha cabeça”.

‘Cara, tua pele está caindo!’

Do lado de fora da boate, Gustavo sofreu um apagão. Acordou minutos depois, sentado no meio-fio.

Na rua, voluntários participavam do resgate das vítimas. Alguns deles, munidos de machados cedidos pelo Corpo de Bombeiros, tentavam improvisar uma “saída de emergência” na fachada do prédio.

Ainda desnorteado, Gustavo saiu vagando pelas ruas do bairro. De seus braços, saía uma fumaça preta. “Cara, tua pele está caindo!”, avisou um desconhecido. “Não, cara. Isso aqui é a minha camisa. Deve ter rasgado no tumulto”, explicou Gustavo. “Não, cara!”, insistiu o sujeito. “Tu tá sem camisa!”.

Foto: Kiss: Que Não Se Repita/Divulgação / BBC News Brasil
Foto: Kiss: Que Não Se Repita/Divulgação / BBC News Brasil

Foi quando Gustavo se deu conta, próximo a um poste de luz, que a pele de seu braço estava presa apenas pelo pulso. O universitário foi levado de ambulância para o Hospital da Caridade, em Santa Maria. E, de lá, transferido em um helicóptero para o Hospital de Pronto-Socorro, em Porto Alegre. Permaneceu em coma por nove dias. Quando acordou, no dia 5 de fevereiro, descobriu que teve 40% do corpo queimado.

A temperatura na boate, segundo estimativas, chegou a 300 graus na madrugada de 27 de janeiro de 2013.

‘Preciso devolver esses meninos e meninas para as suas mães’

Quando a enfermeira Liliane Duarte, de 48 anos, chegou à boate Kiss, por volta das quatro e quarenta e cinco da manhã, Gustavo Cadore e os demais sobreviventes já tinham sido socorridos.

Capitã do Hospital da Brigada Militar de Santa Maria, foi uma das primeiras pessoas a entrar no que sobrou da boate, enquanto os bombeiros ainda faziam o rescaldo do incêndio. Sua garganta queimava e seus olhos ardiam. Muitos policiais, ao se depararem com a pilha de corpos no hall de entrada, caíam no choro.

Àquela altura, os gritos de socorro ouvidos por Gustavo Cadore já tinham silenciado. Em seu lugar, o barulho incessante de dezenas de celulares. Em um deles, o visor trazia, ao lado da palavra ‘Mãe’, 134 ligações não atendidas… “Preciso devolver esses meninos e meninas para as suas mães”, pensou Liliane.

Fonte: Terra

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/10-anos-do-incendio-na-boate-kiss-as-fortes-lembrancas-de-sobreviventes,87a9f63f1f594270363804cfb3ece9016xe35m71.html

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